Thiago Sogayar Bechara e Adriana Peixoto no Bar Brahma
Quando ela surgiu por entre as mesas lotadas do antigo Bar Brahma e subiu para o palco se unindo aos músicos, já não era mais a mulher que fora vista minutos atrás nos bastidores da casa. Ironicamente – ou talvez simples presságio -, nestes instantes que precederam sua entrada em cena, nossa conversa percorreu a lembrança de algumas cantoras-atrizes brasileiras que influenciaram (e ainda o fazem) inúmeros grandes talentos das novas gerações. Ela me disse: “está tudo muito entranhando”. A musicalidade da palavra dita. E a força dramática da cantada. A prova veio em seguida, quando, tomada de destemor, puxou o microfone do pedestal e explodiu em faíscas que magnetizaram a todos.
Adriana Peixoto é uma mulher de 34 anos e, embora lance agora seu primeiro disco pela Studim Brasil, quando se vira para trás vislumbra 15 anos de carreira pelas noites de São Paulo e Rio. É filha do pistonista Araken Peixoto, sobrinha do maestro e pianista Moacyr Peixoto, da cantora Andyara Peixoto, e de Cauby, que canta com ela numa das faixas mais belas do álbum, “Altos e Baixos” (Suely Costa e Aldir Blanc).
Toda esta tradição familiar, no entanto, pode dar-se ao luxo de ser esquecida pela platéia quando Adriana entra em cena. Seu talento fala por si e não deixa dúvidas. “De Cabeça pra Baixo” (Dalmo Medeiros) abre bem a seleção de sambas-jazz por onde navega a voz grave da cantora. Mas não navega em calmaria. Nem a extensão de seu registro vocal se limita às notas mais baixas. Adriana é tempestade. E sua força é violenta. De um vigor seguro e experiente que lembra Elis, não apenas no repertório com “Ladeira da Preguiça” (Gilberto Gil), “Na Batucada da Vida” (Ari Barroso e Luiz Peixoto), “Saudosa Maloca” (Adoniran Barbosa), mas numa ginga maliciosa, em seus improvisos, nos agudos improváveis, no clima que “Voz do Morro” tão bem sintetizou no show de ontem (14/03), quando Adriana com os braços para o alto proclamou: “Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo, sim, senhor”.
Lembra também Bethânia, lembra Clara, Elizeth. Mas lembra sobretudo ela mesma, recriada em sua alma de artista e renovada a cada canção, a cada gota de suor, a cada nova luz que lança aos ares em forma de som, diante de um público pronto para recebê-la e amá-la como uma das mais competentes intérpretes brasileiras da nossa época.
Cida Moreira não é uma cantora das massas. Nunca quis ser unânime. E, seguindo a coerência que alia bom gosto e sensibilidade, mantém por trinta anos a carreira que estreou em 1977 com a peça A Farsa da Noiva Bombardeada, de Alcides Nogueira.
Desde então, a preocupação maior é a de imprimir em seus espetáculos, como atriz e como cantora, a marca de uma personalidade autêntica, sem concessões. Após dedicar-se a grandes pesquisas em trabalhos memoráveis como Cida Moreyra interpreta Bertolt Brecht ou Cida canta Chico Buarque, a diva underground entrou em estúdio no ano passado para homenagear a tempo um dos maiores compositores da MPB.
Angenor é o nome do disco; simples e belo como a obra de Cartola, cujo nome de batismo era Angenor de Oliveira (1908 – 1980). Assim Cida o quis. Mergulhou no universo do compositor, resgatando clássicos como O Mundo é um Moinho (1976), mas sem se poupar de pérolas menos aparentes, como a toada Feriado na Roça (1979) – que conta com a brilhante participação de Osvaldinho do Acordeon, costurando as violas de Omar Campos, não menos competente.
Sofisticado por sua síntese e pela leitura ímpar da obra de Cartola, Angenor chega às lojas com um futuro promissor. Da ginga cadenciada das faixas Alvorada (1974), em que canta também Júlia Porto (filha de Cida), Silêncio de um Cipreste (1979), com Marcelo Fonseca e Sala de Recepção (1976), até o sensível infortúnio amoroso de Autonomia (1977) e Acontece (1975), toda a delicadeza do universo do compositor é respeitada sem que Cida Moreira se ausente de sua verve cênica.
O disco, lançado pela Lua Music, tem 16 faixas dentre as quais não figura a já desgastada – porém não menos bela e relevante – As Rosas não Falam. Um disco que não deve constar apenas nas prateleiras dos fãs de Cartola ou de Cida Moreira, mas certamente na de qualquer um que tenha pela boa música, um apreço especial.
Está confirmado para segunda-feira, dia 25 de fevereiro de 2008, o lançamento do livro “Memórias da Lua”, uma biografia da atriz e diretora Denise Del Vecchio escrita por Tuna Dwek para a Série Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. O evento será às 19 hrs, no Teatrix (Rua Peixoto Gomide, 1066, entre a Al. Santos e a Al. Jaú – São Paulo – SP) e contará com show de André Frateschi (filho de Denise) e Miranda, acompanhados de banda!!!
Simplesmente imperdível!!! “Memórias da Lua” integra mais uma biografia para a reconhecida Série Aplauso. Feita com o respeito e o carinho da também atriz, além de escritora e tradutora, Tuna Dwek, o livro refaz os passos trilhados pela biografada desde sua infância.
Nós, como leitores, descobrimos, juntamente com Denise, sua paixão pelo teatro e o real sentido de vocação existente em seu ofício, tão raro ultimamente. Del Vecchio fez do teatro e, posteriormente da TV, sua maneira de estar no mundo com dignidade e respeito por si própria, sobretudo.
Contar Denise é contar importante capítulo da história do teatro brasileiro e, por isso, este livro é mais que merecido e vem confirmar sua já conhecida versatilidade, inteligência, consciência e sabedoria diante do mundo.
Tenho dormido tarde ultimamente. Aproveitado o que a noite possa ter de útil. Toda hora do dia em que eu escreva é de noite e, por isso, vejo que esta é, de fato, a melhor hora para se estar vivo. Quando canto, também algo há de noturno e me envelhece.Minha paixão pelas palavras é a mesma que nutro pela chuva. Só que não sei chover com elas. Nem molhar o coração de quem me lê. O meu, sim, se inunda. De não palavras.
Chover legitima a existência das coisas. Parece que com o chão molhado elas existem mais. Ficam realçadas pela nossa desatenção sobre elas. E eu precisava dizer sobre isso. E sobre como me comove ver que elas existem. Elas todas como prédios, carros, asfalto, fiação, escapamento e sabiás. Para tudo, há uma alternativa de ser. Vai-se sendo assim ou assado. E quando chove, também é esse assado. Um jeito outro de ser o mesmo. Mais molhado, talvez. Mas não só isso. Nem mais escuro. É mais outras coisas que eu nem sei se sei. Quanto mais explicar.
Cada gota traz em si o seu reflexo do mundo onde caem. E que, em última instância, é o meu próprio reflexo. Olho da janela os espelhinhos que apresentam para mim o seu teatro mágico! Misteriosos porque eles também cantam. A minha voz, sim, eu sei molhada. Quando canto no chuveiro. Mas na chuva, é seca. Enxuta e bela como o gesto sábio de um monge. Apenas necessária. E essa contenção me obriga a ser passivo e a aprender rapidamente os ensinamentos da chuva antes que ela pare. Antes que faça doer de novo, a consciência de estar vivo. Como agora!
Aí então, passo a dormir mais tarde. Encontrar-se, como disse, é sempre tarefa noturna para mim. E escrevo. Se é que há algo de útil na noite, senão a anestesia de saber-se resguardado. De qualquer forma, há minha simpatia por ela. E é tão bom ter algo por que sentir essa incondicional simpatia, que me acarinha. E como eu me anoiteço a cada chuva que pára, existo sempre que chove.
Será que escureço meus leitores como se no momento em que se abrissem meus livros essa névoa de anoitecimento levantasse também de suas páginas inexistentes? Essas dúvidas vêm me tirando o sono, me obrigando mais e mais a pensar nelas e a escrever mais livros. O que é isso, afinal? Algum tipo de destino que não espere de mim menos que uma grande resposta a isso tudo? Não. Isso eu sou quem me cobro. Mas um destino que persiga a idéia de que a mim fora dada a inquietação da lucidez? Que lucidez é esta, se quanto mais me busco, menos encontro quem de fato eu seja.
Talvez eu nem seja nada e pronto. E não há causa para texto algum. Nem mesmo destino haja. É que tudo se resume ao já e nesse já algo está me deixando aberto como um pedaço de carne sobre a mesa. Inconcluso por não ter aprendido a ser: nada. E é neste já que tudo ocorre. Mas não se trata de complô do acaso. Estou, ainda, em tempo de esquecer-me enquanto centro de qualquer coisa que seja. Mas há meu sofrimento e esse ninguém me toma. A certeza da lacuna aberta.
A noite, em mim, é o dia de um eu perfeito e sem lacunas. Eu seria todo durante o dia. E pronto! Gozando do que eu fosse e do que os outros saberiam que eu era. Mas uma parte de mim ainda tem de ser à noite. Não há como prescindir deste momento. Seria luxo ter o aval de tanta lucidez. Digo isso porque são nestas horas que aproveito para projetar novamente tudo o que desejo de minha existência. E sabendo-me, por hora, incapaz de executar o projeto, ainda tomar fôlego para mais um dia de incubação deste novo eu que – algum dia haverá?
Entretanto, ainda sabendo desta não-serventia utilíssima da noite em mim, há minha simpatia por ela, o que a torna bem-vinda a qualquer circunstância e isso me surpreende. Surpreende por não haver motivo para se estar surpreso. É que em toda minha vida não há ineditismo em amar incondicionalmente as coisas. E quando amo, entretanto, me alivio e me espanto. Por que não simpatizaria com a noite que me traz, senão salvação, alívio momentâneo? Deixei a antiga casa em Ribeirão e vim-me embora ter a vida que eu não pedi a ninguém. E estou bem. Ao menos por estar vivo. Tem tudo transcorrido – isso é tudo. É o que importa. Sair desse estado estagnado. A noite é quando o mundo abaixa a guarda e deixa em paz a angústia dos que se atormentam ao saber que alguém pode ainda não ter se deitado.
Mas faz parte da calmaria sabê-la frágil. E todo mar, ainda que manso, é fundo e desconhecido. Assim é o dia em mim, aguardando seu término. E eu duro o tanto quanto for profundo este oceano. Por isso é que, mesmo desatendo ao chão molhado, algo nele me realça a certeza de pertencimento a um universo. Porque de solidão já basta esta de ser dono das palavras que me escapam. Que chova, mas que todos, nela, saiam encharcados. Por isso deito em seus úmidos braços e bebo cada gota desse bálsamo sagrado. A garantia de alguma existência nisso aqui.
Dona de uma voz potente e de uma personalidade cênica dramática, a cantora diz amar o silêncio e confessa não ter entendido ainda sua missão nesta vida.
Entre discos e livros, vive uma das mais respeitadas personalidades da música brasileira. Fã de Janis Joplin, Tom Jobim, Villa Lobos e Chico Buarque, gosta mesmo é de arroz, feijão e bife com batatas fritas. Ama viajar (quer morrer em Veneza), considera-se solitária, gosta de plantas, animais, não tem medo da morte e se define como inteligente e desiludida.
Porém, divide a densidade de seu temperamento artístico com uma vida cotidiana comum e confessa adorar as bobagens da televisão. Já cantou em países como Alemanha, França, Itália, Holanda, Portugal e não tem ritual nenhum antes de subir no palco senão aquecer a voz e maquiar-se. A escorpiana Cida Moreira nos recebeu em seu apartamento no bairro do Jardins e contou um pouco de sua carreira passando por assuntos como religião, psicologia, política e, lógico, muita arte.
Carô Murgel escreveu sobre Maria Aparecida Guimarães Campiolo: “Quando já estávamos acostumados ao vinil colorido como marca dos disquinhos infantis, surgiu no mercado um grande LP lilás, com capa no mesmo tom e – impressionante – as melodias cantadas em lilás. Era seu disco de estréia, Summertime de 1981”.
Balaio – Qual foi seu trabalho mais marcante? Cida – Tem vários, mas eu sinto muita saudades do Summertime. Foi meu primeiro show sozinha e ele ficou muito mistificado no tempo por eu não ter feito outra vez. Gravei AO VIVO no antigo Lira Paulistana aqui em São Paulo.
Balaio – Como surgiu seu envolvimento com as artes? Cida – Nasci assim. Com cinco anos tocava piano e cantava na rádio em Paraguaçú. Na adolescência, participava de corais no colégio, lá em Londrina, onde morei dos 13 aos 17 anos. Uma fase muito importante na minha vida. Quando terminei o conservatório voltei pra São Paulo. Na faculdade, houve um momento muito profícuo de teatro universitário e muita política estudantil. Aí exerci minha profissão de psicóloga por cinco anos. Lidava com criancinhas complicadas (ri). Só em 1978 voltei a trabalhar com arte, já profissionalmente. Mas eu adoro a psicologia. Até hoje. E quero ainda voltar a exercer a profissão.
Balaio – Como a psicologia influi na sua arte? Cida – De jeito nenhum. Não tem nada a ver, ao contrário do que as pessoas pensam. São ciências diferentes e todos querem fazer terapia da arte. Eu não acredito nisso.
Balaio – Qual seu hobbie quando não está trabalhando? Cida – Trabalhar! (ri). Amo trabalhar. Mas depois disso, gosto de ver televisão (adoro porcarias) e ler. No momento estou lendo várias coisas: A Morte de Tristano do Antônio Tabucchi que eu amo; um livro sobre cabala; outro sobre meditação budista; e o de entrevistas da Clarice Lispector, que está no fim.
Balaio – Você escreve? Cida – Escrevo, mas não escrevo. Um dia escreverei. Agora música não me arrisco. Não quero encher o mundo com a minha mediocridade. Já tem tanta gente boa por aí. Pra que isso?
Balaio – Música, filme e peça favoritos. Cida – Música: Tudo que for bom. Filme: Era uma vez na América. Peça: Na Selva das Cidades de Bertolt Brecht.
Balaio – Você tem um disco em que só canta Brecht. O que ele representa para você? Cida – É a minha vida! Eu sou aquela pessoa. Conheci com 14 anos e descobri o mundo dos excluídos, do qual eu faço parte. Foi e é minha maior descoberta até hoje. Adoro o espanto do público toda vez que eu canto. E isso é espetacular. Se eu tivesse essa capacidade sempre… Na minha opinião, esse é o papel do artista. Adoro ser desconsertada.
Balaio – Você é religiosa? Cida – Demais. Tenho muitas religiões, embora a de origem seja católica. Mas sou muito religiosa. Freqüento várias coisas; o que dá na telha. Acredito em muitas facetas da religião. Pra mim, Deus é uma possibilidade de elevação à todo momento. E Ele não tem de vir até nós. Nós é que temos de ir a Ele, se quisermos.
Balaio – Morte e religião tem a ver para você? Cida – Não! Acredito em vida após a morte, mas isso independe da religião que eu tenha. No mais, lido muitíssimo bem com a morte. Tranqüilamente.
Balaio – Existem várias ‘Cidas’ dentro de uma só. Como conciliar todas elas? Cida – Eu sofro. Dar aulas e subir no palco são prazeres diferentes. Mas de qualquer maneira é um só. O ofício da música o tempo todo. Trabalho 24 hrs com música. Esse é o prazer central da história. Além disso, sou mãe, dona de casa… É caótico conciliar tudo.
Balaio – Como é a Cida mãe? Cida – Está aí a Júlia que não me deixa mentir. Ela diz que eu sou intransigente, autoritária e grossa. Uma mãe minimamente boa é uma mãe minimamente ruim. Odeio gente boazinha. E gente muito ruinzinha também não presta. Tem que ter equilíbrio.
Balaio – Como você vê a atual conjuntura brasileira na política e na cultura? Cida – Tem coisas boas e ruins. De bom tem que o Brasil continua profícuo de talentos, belezas, culturas. Mas em termos de nação, nós somos hipócritas. A gente vive uma realidade que não é bem essa. Existe uma mistificação de um país que só há na cabeça de algumas poucas pessoas. E as decisões todas vicejam em torno desse equivoco, dessa falsa consciência sobre o que seja o país. A minha geração, por exemplo, jamais terá o que sonhou. Política? Lama! Apesar de ainda existirem representantes desse governo em que ainda acredito. Cultura? Falsa como a política. Na mão de grupinhos. Essa compulsão pela novidade é da natureza brasileira. Mas acho que isso não é o pior. O problema é a falta de critérios da população pra usufruir do que é dado pelo rodízio cultural da mídia.
Balaio – Quais cantores da atualidade, no seu ver, ficarão para sempre? Cida – Difícil! A MPB hoje está mais velha do que era há 60 anos atrás. A última grande revolução musical foi a Bossa Nova (ri). O que fica, na verdade, é a qualidade das obras, e as pessoas andam sem tempo de construir uma obra. A relação com a arte é outra. Não tenho essa pretensão. Ou você fez algo que mereça ser lembrado ou não pode querer isso. Acho que se tudo morrer junto comigo, está tudo certo. Brecht diz: quem morre é o morto.
Balaio – Cida por Cida, como seria? Cida – Sou filha de imigrante. Sou concreta. Meu pai veio da Itália pra substituir os escravos na lavoura de café. Então eu tenho esse jeito de abordar o mundo. Menos fantasioso. Qualidade: honestidade desconsertante, embora me traga muitos problemas até hoje. Defeito: essa mesma honestidade. Segundo minha filha, sou generosa beirando o excesso e nunca recebo o que dou em troca. Mas não acho. Penso que só sou doadora quando quero e acho que as pessoas merecem.
Balaio – Almeja algo que ainda não tenha? Cida – Já almejei, não almejo mais. As coisas não estão resolvidas, mas pelo menos apaziguadas. Estou tentando me tornar o que eu sou. Quero descobrir o que é isso para ver se envelheço direitinho (ri).
Vem o céu beber nesse rio
Vai-se o dia prosseguindo a vida.
Inzoneiro como corre o rio.
Displicente como ocorre a vida.
Sem prever onde é que morre o rio,
nem saber onde deságua a vida…
Se o ventre de onde brota o rio
é o mesmo que gerou a vida,
permitiu que renascesse o rio,
deu, ao rio, o poder dessa vida,
essa vida é um pedaço do rio.
Esse rio é o começo da vida!
A língua, para um povo, é mais do que um simples código estabelecido por meio de convenção, ainda que, por si só, tal consenso já conferiria ao ato da fala humana uma importância sem igual. No entanto, “língua” abrange em seu conceito, uma complexidade enorme de tramas que, analisadas cuidadosamente, revelam, com precisão, características específicas de um determinado país ou cultura, bem como de sua história.
Buscando evidenciar isso, o Museu da Língua Portuguesa foi idealizado e aberto ao público no dia 21 de março de 2006. Hoje, com seu primeiro ano de vida recém completado, ele comemora o sucesso de um projeto bem sucedido – haja vista as mais de 580 mil pessoas que já o visitaram – e traz uma novidade para a população de São Paulo. A nova mostra temporária sobre os 30 anos de morte da escritora Clarice Lispector ocupa desde o dia 23 de abril, o primeiro piso do museu, onde, até então, se encontrava “Grande Sertão: Veredas” sobre a obra homônima de Guimarães Rosa.
“Clarice Lispector – A Hora da Estrela” conta com a curadoria de Júlia Pelegrino, seleção de textos do poeta Ferreira Gullar e cenografia de Daniela Thomas, além de estar sendo planejada uma grande estrutura que visa contemplar toda a obra da ucraniana que aportou no Brasil em 1922, ainda com dois anos de idade.
“Serão expostos objetos museológicos, como as diversas carteiras de identidade da autora além de manuscritos, por exemplo. A obra de Clarice, mesmo após 30 anos de sua morte, continua extremamente atual; um grande marco na literatura universal”, revela o diretor do Museu da Língua, Antonio Carlos Sartini, 47 anos. “É bonito observar a grandeza de uma palavra quando se pensa na identidade cultural de um país; uma das poucas coisas que, em tempos de Globalização, ainda faz um povo sentir-se pertencente a um mesmo universo. Eu senti isso muito fortemente na exposição do Guimarães e espero sentir agora na da Clarice também”, analisa fascinada a professora de História Walewska Andreoni antes de entrar no prédio da Estação da Luz. “Essa percepção é um dos maiores aprendizados que se pode tirar de uma visita como essa”, completa.
Ao fugir de estruturas convencionais, o museu obriga a um olhar menos acadêmico e, no entanto, mais revelador daquilo o que pretende dizer, devido ao seu dinamismo. “A partir do momento em que o público pode seguir seu grau de interesse e curiosidade pra acessar os conteúdos, isso torna a experiência de visitá-lo, muito mais rica. As pessoas podem descobrir coisas pela curiosidade, pelo olhar. É maravilhoso um museu permitir isso através da brincadeira, tocando telas e ganhando de prêmios, palavras novas, desconhecidas”, explica Jarbas Montovanini, Gerente Regional da Fundação Roberto Marinho com a qual o Governo do Estado mantém parceria para o projeto desde o inicio.
“Sobre a mostra da Clarice: houve muitos pedidos pra que a exposição do Grande Sertão fosse prorrogada, por isso permaneceu até agora. Na verdade, a nova escolha foi feita pelo ‘Instituto Brasil Leitor’, que também é parceiro do Governo do Estado por meio da Secretaria da Cultura”, revela também.
A mostra “Clarice Lispector – A Hora da Estrela”, orçada em R$ 400.000,00 deve permanecer exposta por quatro meses quando, então, seguirá para o Rio de Janeiro em local ainda a ser definido. Segundo a professora de literatura e tradutora Silvia Cristina Martins, 43 anos, a escolha de Lispector é oportuna: “Clarice foi uma grande mulher e merece essa homenagem. Meu primeiro contato com ela veio pela leitura do conto ‘Feliz Aniversário’. Fiquei espantada! Ela traz características que simplesmente reforçam aquilo o que vivemos: uma sociedade que se utiliza de um processo de aprisionamento das pessoas”. Silvia comemora a exposição do Museu da Língua e conta curiosidades sobre Clarice: “Como mulher, era uma incógnita. Muitos diziam ser antipática. Haja vista a única entrevista que deu na TV Cultura. No entanto, o que fica é sua grandiosa obra. Que venham seus personagens solitários, angustiados e ansiosos por chegarem ao silêncio. Parece triste, mas alguém precisa nos despertar”. Segundo a professora, ninguém fez isso tão bem quanto Lispector.
Já Sartini complementa: “A mostra não ficará presa às paredes do Museu e todo um material de apoio está em preparo para auxiliar os professores em sala de aula. Queremos, além de celebrar a obra dessa grande artista, prestar uma homenagem a todas as mulheres que, tão bem, sabem reconhecer a geografia da alma humana”.
A célebre frase dita por Nelson Sargento sobre Cartola venceu a barreira dos anos e chegou até nós com o mesmo frescor de sambas como Tive Sim e O Mundo é um Moinho. “Cartola não existiu. Foi um sonho que a gente teve”. E por mais que insistentemente repetida a cada evocação feita sobre Angenor de Oliveira, ela se recicla, assumindo outra conotação, ainda mais se dita para exprimir a beleza de um filme como “Cartola – Música para os olhos” que acaba de entrar nos cinemas.
Dirigido por Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, o documentário sobre o sambista da Velha Guarda da Estação Primeira de Mangueira concatena elementos de diversas linguagens artísticas para resultar mais especificamente num filme que trata de música. Mas é muito mais que isso: penso que ao reconstituir a vida de uma personalidade como Cartola, qualquer diretor se obriga a contar também, a história do samba, o que inevitavelmente se confunde com o percurso trilhado pelo país.
“Música para os olhos”, logo nos primeiros minutos, converte-se em música para o coração. Para o corpo inteiro. O documentário se inicia com um excerto de Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis e segue com depoimentos de amigos, passando por trechos de filmes como Copacabana, estrelado em 1947 por Carmem Miranda e Groucho Marx.
Provavelmente Marx não conheceu Cartola. E, no entanto, é bonito perceber como ajuda a recontar sua trajetória. Com pitadas de humor e cenas raras como o encontro entre Donga, João da Baiana e Pixinguinha numa mesa de bar, o documentário mostra os foliões da época e dedica boa parte de seu tempo à escola de samba cujos nome e cores foram igualmente dados pelo autor de As Rosas não Falam.
Figuras como Chico Buarque, Elizethe Cardoso, Elza Soares, Beth Carvalho e Dona Zica, esposa de Cartola, fazem justiça à memória do compositor que vem sendo gravado por grandes nomes da MPB tais como Elis Regina (Basta de Clamares Inocência no álbum “Essa Mulher”, 1979) ou Ney Matogrosso, que dedicou em 2002 um trabalho todo à sua obra interpretando pérolas como Corra e Olhe o Céu e Ensaboa. No entanto, esses dois últimos não aparecem no documentário.
O compositor, reconhecido quase no fim de sua vida, é hoje uma das figuras mais aclamadas quando se fala em música brasileira e “Música para os olhos” vem coroar todo esse respeito com cores marcantes de um tempo igualmente rico e belo como a obra de Cartola. Como a história do Brasil.
Cidade grande é igual sertão da gente. Seco! E tem lá seus mistérios. Acauã, na minha terra, canta mágoa dos caboclos. Cá, mágoa não tem. Nem acauã! Essa gente que não sente. Quer mais secura? Dá nisso, de nascer homem tinhoso, espinhento. E de espinhar, quem chega perto? Mandacaru! Sem tirar nem pôr, eu digo! Antes mágoa bem sofrida que essa ausência. Saudade mata a gente. Lá, se morre é de sede. Aqui, de fome! Vai-se indo. Só não se sabe bem pra onde. Carro que voa como feito pensamento. Diferença é que pensamento se pega de graça. Mas também, não chega a lugar nenhum. Vamos onde dá. Onde Deus quer. Há de querer!
Lá se via pouca gente, mas se tinha com todos. Aqui, se vê muita gente e não se fala é com ninguém. Deve dar na mesma. Voação de coisa por cima por baixo. Inventância de moda. Mas acho bonito! Tanto número; Nós nem sabe dizer. Não cabe no bolso. Nem na língua. O que cabe, é na mão. Enxada! Aí sim, como era em minha terra. Mas cá, se rastela no cimento. Nasce é nada, mas sobe cada muro alto, de fazer gosto; e morar gente dentro. Uma beleza. Juriti arrulha fim de tarde. Digo. As coisas são iguais. Por isso gosto daqui. Não se sofre mais, sofre igual.
Ana gosta da vidinha dela. Sai cedo, toma ônibus, metrô. Até na casa onde trabalha. Se tem serviço, vou junto; senão, to no Elias c´os meninos. Uma pra mim, uma pro santo. Não esqueço meu Padim Ciço. Frei Damião. E o tempo avoa! Corisco! Também que tudo é longe. Tudo grande. Lampião fazia festa. Roubava à vontade. Vida boa! Lá, cangaceiro é lei. Aqui não? Digo que nada muda!
Lá, chão é duro de calor. Aqui, tem tanto calor porque o chão é duro! Só isso. Mas nos dois sobra calor e falta chão. Vai vendo. Lá, notícia corre no lombo do jegue. Cá não tem jegue. Mas tem notícia. E corre qual o quê! Dá é gosto, como acontece coisa. Nós não aparece. Nunca. Não faço caso. Quizumba né comigo. Ana também não gosta. Quem sabe o dia que sertão virar mar. Mas digo. Se mar virar sertão, vai ser maior que o meu. Falam que tem mais água que terra. Não lá! E que anda acabando. Melhor não ter de vez. Já nascer seco. Aqui as coisas pioram. Engraçado.
De barco ou jegue, vou feliz. Amanhã tem serviço. Ana que não voltou. Vim do Elias e me pus falando que já chega. Nada dela. Vou esperar na cama. Com a licença? Me vendo na rua, chama! Se lembrar de mim. Aqui amizade acaba logo. Mas é boa enquanto dura. Vale isso. Né não? Volta amanhã. Não há de que se arrepender. Vai ver como sertão é mesmo igual cidade grande.