Para viver no faz de conta, sê tu mesmo. Verás como é duro sonhar! Balaio é onde todos os sonhos cabem.

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Balaio é o ponto de convergência das informações culturais mais interessantes de São Paulo e da produção literária de um jovem estudante de Jornalismo que se recria por meio das artes e das coisas belas da vida sempre que algo o toque além da pele. É onde cabe de tudo. Onde podemos ser nós mesmos. Espero que gostem!

PROSA

Uma crônica caipira 

Para Denise Del Vecchio 

            Quando venta lá fora, venta cá dentro da gente também? Às vezes. Que é quando bate uma tristeza de ser só. Pudera; só, se é em toda parte. Cá na fazenda, e em toda imensidão lá da cidade. Hoje madruguei; vi o sol nascer. Amanhã, vejo ele se pôr. Nunca pus reparo em como é lindo assim. Que paz, entre as serras da pedreira e o Mato Grosso. Vejo da estrada as palmeiras. Cada mata, aquelas pedras, montanhas. Tudo. Tão lindo. Eu que não me dei de olhar, mas vive tudo aí. Foi que aprendi ser feliz com o que se tem.

 

            Quando desço no rio, deito nas pedras. Fica-se ouvindo o som da água, por cima da areia, numa sombra de peroba. E arre, que venta. Chega que assobia. E dá de às vezes ver no céu, trançar a revoada da passarada. A velha trilha, poeirenta, que eu cruzei até aqui. Matuto. Sabe que ando mesmo é falando comigo. Sei não se tô  doida. Fixo meus olhos no bando na intenção de segui-lo, como se esquecendo do limite próprio de qualquer lugar. Um descuido, se perderam atrás da capoeira que servia de divisa para o mundo. E nem arame não tem. Ali tudo se acaba. Meu olhar. Acho, agora pensando, que esses dias foi mesmo a primeira vez que estive só. Existência. Foi simples como isso. E tão bonito. Nunca vi tamanha boniteza. Foi como se nada contasse tudo o que eu vivi até o momento, para poder ter essa prova. Deu-me o som das águas, esse mimo. O de lembrar da minha condição de ser integrante àquilo tudo.

 

            Molhei as costas no orvalho da grama. Descobri o mundo, ó Pai. E aquela solidão, junto do canto de uma ave – um quero-quero – fizeram aqui um querer-querer qualquer coisa daquilo para dentro de mim. As formigas, o gado, o cheiro do encosta. As raízes de cada muda do capim que eu amassava com meu corpo. Nada ali tinha um senhor, senão a própria força que regia e regulava cada elemento. Tudo íntegro. Comunhão de paz. E eu me pastando, ruminando toda aquela vida que dançava em roda à minha volta. Quero ser é tudo, árvore. Ser só e bela e dar o bem. Lembro de quem desmata. Dor, sem jeito de entender. Um dia os homens entenderiam. E eu que era feliz. Ninguém sabia. Nem eu. Só os quero-queros.

 

            Mas hoje ando até notando. Sei não que vai ser se um dia eu for embora. A gente pega amor nas coisas. Até no que é dos outros. Mas a casa é minha. Fazenda é sua, mas a casa… Daqui desse degrau na varanda viu-se sempre as mesmas coisas. Essas! Mudaram, mas estão ali. Como eu, que sou ainda eu mesma, só que olhando para elas! Isso de mudar é virar outro sendo o mesmo. E não se muda? Arre, que sim. E o vento ali, pegado à cerca. O palmiteiro e aqueles pés de cravo. Mexerica doce que só cá. Terra branca, piçarra. Do outro lado, a porteira e muito ipê, que andaram pondo por volta do açude. Tem peixe tanto que sobra é água. Proseei comigo mesma outra vez. Fiquei ali sentada na pedra de frente pra grota. Falei mesmo, vai saber quem estava ouvindo? Marido diz que sou doida. Quem não é? Tava era lá vivendo meu mundo irreal. Até o vento cochicha por meio das grenvilhas. Por que eu não posso ventar também? Pomba-do-ar arrulha, quer tenha quem ouça ou não! Quero mais é falar.

 

            Não fui ao cinema, não andei de elevador, acho que nem atravessar rua eu sei. E? Mas o sol: Aconteceu que subindo pra roça dei com um homem bem cedinho olhando o céu. Não entendi foi coisa nenhuma. Bom dia! Segui. Mas virei e vi bem a direção que ele olhava. E não era o sol nascendo por detrás do Mato Grosso? Passava sempre correndo pra ir pro talhão de café, mas nesse dia foi que eu descobri coisa nova em meio a mesmice. Nunca tinha reparado. Agora vejo é sempre. E fico pensando. No meio das ruas de milho, tudo embonecado. Boneca de milho é coisa linda que também ninguém repara. Outro dia, nisso tudo, me chega outro sujeito. E eu ando que não gostando que me atrapalhem os pensamentos. Êta estorvo! Atrapalhou foi muito, querendo rumo da venda da Vilma. Sabe lá pronde é? Quero um cabresto que só pressas bandas. Segue a vida toda e dobra depois da ponte do Timburí, respondi. Serviu pra eu ver como ando em mim mesma.

Rosilda

04/2007

 

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2 responses

20 06 2007
Fernanda de Aragão

Gostei do Balaio… e Cida Moreira é mesmo de outro mundo, de outro cabaré. Estou andando pelos blogs, procurando aqueles com temas parecido com o nosso Sertão Paulistano (http://www.sertaopaulistano.blogspot.com), com as coisas da cidade, com as coisas do interior que estão na cidade. Espero que possamos fazer parcerias. Abraços. Fernanda.

12 12 2007
Laura

Olá Thiago !
Aqui é a Laura, filha da Mariangela que trabalha com seu pai !

Fiz teatro nesse ano e amei !
Fiz a peça Cyrano de Bergerac na Casa do Teatro … é super legal !

Parabéns!
Beijos, Laura

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