
Thiago Sogayar Bechara e Adriana Peixoto no Bar Brahma
Quando ela surgiu por entre as mesas lotadas do antigo Bar Brahma e subiu para o palco se unindo aos músicos, já não era mais a mulher que fora vista minutos atrás nos bastidores da casa. Ironicamente – ou talvez simples presságio -, nestes instantes que precederam sua entrada em cena, nossa conversa percorreu a lembrança de algumas cantoras-atrizes brasileiras que influenciaram (e ainda o fazem) inúmeros grandes talentos das novas gerações. Ela me disse: “está tudo muito entranhando”. A musicalidade da palavra dita. E a força dramática da cantada. A prova veio em seguida, quando, tomada de destemor, puxou o microfone do pedestal e explodiu em faíscas que magnetizaram a todos.
Adriana Peixoto é uma mulher de 34 anos e, embora lance agora seu primeiro disco pela Studim Brasil, quando se vira para trás vislumbra 15 anos de carreira pelas noites de São Paulo e Rio. É filha do pistonista Araken Peixoto, sobrinha do maestro e pianista Moacyr Peixoto, da cantora Andyara Peixoto, e de Cauby, que canta com ela numa das faixas mais belas do álbum, “Altos e Baixos” (Suely Costa e Aldir Blanc).

Toda esta tradição familiar, no entanto, pode dar-se ao luxo de ser esquecida pela platéia quando Adriana entra em cena. Seu talento fala por si e não deixa dúvidas. “De Cabeça pra Baixo” (Dalmo Medeiros) abre bem a seleção de sambas-jazz por onde navega a voz grave da cantora. Mas não navega em calmaria. Nem a extensão de seu registro vocal se limita às notas mais baixas. Adriana é tempestade. E sua força é violenta. De um vigor seguro e experiente que lembra Elis, não apenas no repertório com “Ladeira da Preguiça” (Gilberto Gil), “Na Batucada da Vida” (Ari Barroso e Luiz Peixoto), “Saudosa Maloca” (Adoniran Barbosa), mas numa ginga maliciosa, em seus improvisos, nos agudos improváveis, no clima que “Voz do Morro” tão bem sintetizou no show de ontem (14/03), quando Adriana com os braços para o alto proclamou: “Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo, sim, senhor”.
Lembra também Bethânia, lembra Clara, Elizeth. Mas lembra sobretudo ela mesma, recriada em sua alma de artista e renovada a cada canção, a cada gota de suor, a cada nova luz que lança aos ares em forma de som, diante de um público pronto para recebê-la e amá-la como uma das mais competentes intérpretes brasileiras da nossa época.
Thiago Sogayar Bechara
15/03/2009