Desde então, a preocupação maior é a de imprimir em seus espetáculos, como atriz e como cantora, a marca de uma personalidade autêntica, sem concessões. Após dedicar-se a grandes pesquisas em trabalhos memoráveis como Cida Moreyra interpreta Bertolt Brecht ou Cida canta Chico Buarque, a diva underground entrou em estúdio no ano passado para homenagear a tempo um dos maiores compositores da MPB.
Angenor é o nome do disco; simples e belo como a obra de Cartola, cujo nome de batismo era Angenor de Oliveira (1908 – 1980). Assim Cida o quis. Mergulhou no universo do compositor, resgatando clássicos como O Mundo é um Moinho (1976), mas sem se poupar de pérolas menos aparentes, como a toada Feriado na Roça (1979) – que conta com a brilhante participação de Osvaldinho do Acordeon, costurando as violas de Omar Campos, não menos competente.
Sofisticado por sua síntese e pela leitura ímpar da obra de Cartola, Angenor chega às lojas com um futuro promissor. Da ginga cadenciada das faixas Alvorada (1974), em que canta também Júlia Porto (filha de Cida), Silêncio de um Cipreste (1979), com Marcelo Fonseca e Sala de Recepção (1976), até o sensível infortúnio amoroso de Autonomia (1977) e Acontece (1975), toda a delicadeza do universo do compositor é respeitada sem que Cida Moreira se ausente de sua verve cênica.
O disco, lançado pela Lua Music, tem 16 faixas dentre as quais não figura a já desgastada – porém não menos bela e relevante – As Rosas não Falam. Um disco que não deve constar apenas nas prateleiras dos fãs de Cartola ou de Cida Moreira, mas certamente na de qualquer um que tenha pela boa música, um apreço especial.
Thiago Sogayar Bechara – 13/05/2008
Menino, eu ví… e ouví! Cida no Festival de Música de Londrina apresentou 2 espetáculos arrepiantes – um de modinhas imperiais e canções brasileiras (Camilo Carrara, magnífico ao violão) e outro “Cabaret” (Weill, Brecht, …). Aproveitei a oportunidade para comprar Angenor, que ouço, ouço, ouço e não cansa. Sempre digo às pessoas que ela pode não ser a melhor voz brasileira, mas com certeza é a diva da interpretação.