Quando escrevo, é de noite!

27 08 2007

            

Tenho dormido tarde ultimamente. Aproveitado o que a noite possa ter de útil. Toda hora do dia em que eu escreva é de noite e, por isso, vejo que esta é, de fato, a melhor hora para se estar vivo. Quando canto, também algo há de noturno e me envelhece.Minha paixão pelas palavras é a mesma que nutro pela chuva. Só que não sei chover com elas. Nem molhar o coração de quem me lê. O meu, sim, se inunda. De não palavras.

Chover legitima a existência das coisas. Parece que com o chão molhado elas existem mais. Ficam realçadas pela nossa desatenção sobre elas. E eu precisava dizer sobre isso. E sobre como me comove ver que elas existem. Elas todas como prédios, carros, asfalto, fiação, escapamento e sabiás. Para tudo, há uma alternativa de ser. Vai-se sendo assim ou assado. E quando chove, também é esse assado. Um jeito outro de ser o mesmo. Mais molhado, talvez. Mas não só isso. Nem mais escuro. É mais outras coisas que eu nem sei se sei. Quanto mais explicar.

            Cada gota traz em si o seu reflexo do mundo onde caem. E que, em última instância, é o meu próprio reflexo. Olho da janela os espelhinhos que apresentam para mim o seu teatro mágico! Misteriosos porque eles também cantam. A minha voz, sim, eu sei molhada. Quando canto no chuveiro. Mas na chuva, é seca. Enxuta e bela como o gesto sábio de um monge. Apenas necessária. E essa contenção me obriga a ser passivo e a aprender rapidamente os ensinamentos da chuva antes que ela pare. Antes que faça doer de novo, a consciência de estar vivo. Como agora!

             Aí então, passo a dormir mais tarde. Encontrar-se, como disse, é sempre tarefa noturna para mim. E escrevo. Se é que há algo de útil na noite, senão a anestesia de saber-se resguardado. De qualquer forma, há minha simpatia por ela. E é tão bom ter algo por que sentir essa incondicional simpatia, que me acarinha. E como eu me anoiteço a cada chuva que pára, existo sempre que chove.           

            Será que escureço meus leitores como se no momento em que se abrissem meus livros essa névoa de anoitecimento levantasse também de suas páginas inexistentes? Essas dúvidas vêm me tirando o sono, me obrigando mais e mais a pensar nelas e a escrever mais livros. O que é isso, afinal? Algum tipo de destino que não espere de mim menos que uma grande resposta a isso tudo? Não. Isso eu sou quem me cobro. Mas um destino que persiga a idéia de que a mim fora dada a inquietação da lucidez? Que lucidez é esta, se quanto mais me busco, menos encontro quem de fato eu seja.

             Talvez eu nem seja nada e pronto. E não há causa para texto algum. Nem mesmo destino haja. É que tudo se resume ao já e nesse já algo está me deixando aberto como um pedaço de carne sobre a mesa. Inconcluso por não ter aprendido a ser: nada. E é neste já que tudo ocorre. Mas não se trata de complô do acaso. Estou, ainda, em tempo de esquecer-me enquanto centro de qualquer coisa que seja. Mas há meu sofrimento e esse ninguém me toma. A certeza da lacuna aberta. 

            A noite, em mim, é o dia de um eu perfeito e sem lacunas. Eu seria todo durante o dia. E pronto! Gozando do que eu fosse e do que os outros saberiam que eu era. Mas uma parte de mim ainda tem de ser à noite. Não há como prescindir deste momento. Seria luxo ter o aval de tanta lucidez. Digo isso porque são nestas horas que aproveito para projetar novamente tudo o que desejo de minha existência. E sabendo-me, por hora, incapaz de executar o projeto, ainda tomar fôlego para mais um dia de incubação deste novo eu que – algum dia haverá?

           

            Entretanto, ainda sabendo desta não-serventia utilíssima da noite em mim, há minha simpatia por ela, o que a torna bem-vinda a qualquer circunstância e isso me surpreende. Surpreende por não haver motivo para se estar surpreso. É que em toda minha vida não há ineditismo em amar incondicionalmente as coisas. E quando amo, entretanto, me alivio e me espanto. Por que não simpatizaria com a noite que me traz, senão salvação, alívio momentâneo?                     Deixei a antiga casa em Ribeirão e vim-me embora ter a vida que eu não pedi a ninguém. E estou bem. Ao menos por estar vivo. Tem tudo transcorrido – isso é tudo. É o que importa. Sair desse estado estagnado. A noite é quando o mundo abaixa a guarda e deixa em paz a angústia dos que se atormentam ao saber que alguém pode ainda não ter se deitado.

            Mas faz parte da calmaria sabê-la frágil. E todo mar, ainda que manso, é fundo e desconhecido. Assim é o dia em mim, aguardando seu término. E eu duro o tanto quanto for profundo este oceano. Por isso é que, mesmo desatendo ao chão molhado, algo nele me realça a certeza de pertencimento a um universo. Porque de solidão já basta esta de ser dono das palavras que me escapam. Que chova, mas que todos, nela, saiam encharcados. Por isso deito em seus úmidos braços e bebo cada gota desse bálsamo sagrado. A garantia de alguma existência nisso aqui.

JULHO/AGOSTO 2007


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6 respostas

27 08 2007
Fernanda

Eu fico cá pensando com meus botões: onde está a madrugada nesta história toda? E quando você ficar em suspense (mais em suspense do que surpreso), haverá mais boemia em você do que sonha sua vã filosofia? Tenho curiosidades. Você tem lido muito Clarice, mas se distancia dela. Da mesma maneira que se aproxima e se distancia de Florbela. Fosse um texto em verso eu diria a mesma coisa, lembrando Ana Cristina César, mas pelo contra-ponto, do lado do avesso. Mas, caso você queira se deixar, eu levo você para a noite da noite adentro, para o avesso da noite que é a madrugada. As madrugadas do amor adentro, do amor avesso, da literatura ás avessas. Beijo.

20 11 2007
Melissa

Nossa…!!!!!!!!!!!!!! Que lindo! :-) )))))))

9 12 2007
Vlad

À noite, o sono não vem. E também fico com vontade de escrever. Mas ando travado… E todo post eu acabo detestando e apagando em seguida. Alguns, mesmo horríveis, ainda larguei lá. rs… Além do mais, ando meio rebelde. E tem sempre algum amigo ou parente que se sente ofendido com o que eu escrevo e vem pegar no meu pé! Bom, mas passei pra dizer que gostei do seu blog. Era isso.
Abraço,
Vlad

13 02 2009
Letícia

Thi, vc conseguiu colocar em palavras o que eu sempre tentei. Um pouco da minha vida boêmia marcada por noites insones escrevendo textos sem fim e lendo livros aos montes. Escreveu, ainda, sobre a chuva, que considero um grande coadjuvante, por vezes tenebroso, de nossa linda cidade. Continue escrevendo sobre seus sentidos, pois embora um pouco confusos, eles fazem mais sentido do que vc imagina.
Bjux!

3 03 2009
Fernanda Soler

Olha só o que eu achei!!!

3 03 2009
thibalaio

Salve!!! Bem-vinda, Fê…
se tiver um tempinho, leia o perfil da Cida que eu fiz aqui pro Balaio.
Beijão, Thi

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