CIDA MOREIRA, sublime e trágica

27 05 2007

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Dona de uma voz potente e de uma personalidade cênica dramática, a cantora diz amar o silêncio e confessa não ter entendido ainda sua missão nesta vida.

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Entre discos e livros, vive uma das mais respeitadas personalidades da música brasileira. Fã de Janis Joplin, Tom Jobim, Villa Lobos e Chico Buarque, gosta mesmo é de arroz, feijão e bife com batatas fritas. Ama viajar (quer morrer em Veneza), considera-se solitária, gosta de plantas, animais, não tem medo da morte e se define como inteligente e desiludida.

Porém, divide a densidade de seu temperamento artístico com uma vida cotidiana comum e confessa adorar as bobagens da televisão. Já cantou em países como Alemanha, França, Itália, Holanda, Portugal e não tem ritual nenhum antes de subir no palco senão aquecer a voz e maquiar-se. A escorpiana Cida Moreira nos recebeu em seu apartamento no bairro do Jardins e contou um pouco de sua carreira passando por assuntos como religião, psicologia, política e, lógico, muita arte.

Carô Murgel escreveu sobre Maria Aparecida Guimarães Campiolo: “Quando já estávamos acostumados ao vinil colorido como marca dos disquinhos infantis, surgiu no mercado um grande LP lilás, com capa no mesmo tom e – impressionante – as melodias cantadas em lilás. Era seu disco de estréia, Summertime de 1981”.

Balaio – Qual foi seu trabalho mais marcante?
Cida – Tem vários, mas eu sinto muita saudades do Summertime. Foi meu primeiro show sozinha e ele ficou muito mistificado no tempo por eu não ter feito outra vez. Gravei AO VIVO no antigo Lira Paulistana aqui em São Paulo.

Balaio – Como surgiu seu envolvimento com as artes?
Cida – Nasci assim. Com cinco anos tocava piano e cantava na rádio em Paraguaçú. Na adolescência, participava de corais no colégio, lá em Londrina, onde morei dos 13 aos 17 anos. Uma fase muito importante na minha vida. Quando terminei o conservatório voltei pra São Paulo. Na faculdade, houve um momento muito profícuo de teatro universitário e muita política estudantil. Aí exerci minha profissão de psicóloga por cinco anos. Lidava com criancinhas complicadas (ri). Só em 1978 voltei a trabalhar com arte, já profissionalmente. Mas eu adoro a psicologia. Até hoje. E quero ainda voltar a exercer a profissão.

Balaio – Como a psicologia influi na sua arte?
Cida – De jeito nenhum. Não tem nada a ver, ao contrário do que as pessoas pensam. São ciências diferentes e todos querem fazer terapia da arte. Eu não acredito nisso.

Balaio – Qual seu hobbie quando não está trabalhando?
Cida – Trabalhar! (ri). Amo trabalhar. Mas depois disso, gosto de ver televisão (adoro porcarias) e ler. No momento estou lendo várias coisas: A Morte de Tristano do Antônio Tabucchi que eu amo; um livro sobre cabala; outro sobre meditação budista; e o de entrevistas da Clarice Lispector, que está no fim.

Balaio – Você escreve?
Cida – Escrevo, mas não escrevo. Um dia escreverei. Agora música não me arrisco. Não quero encher o mundo com a minha mediocridade. Já tem tanta gente boa por aí. Pra que isso?

Balaio – Música, filme e peça favoritos.
Cida – Música: Tudo que for bom. Filme: Era uma vez na América. Peça: Na Selva das Cidades de Bertolt Brecht.

Balaio – Você tem um disco em que só canta Brecht. O que ele representa para você?
Cida – É a minha vida! Eu sou aquela pessoa. Conheci com 14 anos e descobri o mundo dos excluídos, do qual eu faço parte. Foi e é minha maior descoberta até hoje. Adoro o espanto do público toda vez que eu canto. E isso é espetacular. Se eu tivesse essa capacidade sempre… Na minha opinião, esse é o papel do artista. Adoro ser desconsertada.

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Balaio – Você é religiosa?
Cida – Demais. Tenho muitas religiões, embora a de origem seja católica. Mas sou muito religiosa. Freqüento várias coisas; o que dá na telha. Acredito em muitas facetas da religião. Pra mim, Deus é uma possibilidade de elevação à todo momento. E Ele não tem de vir até nós. Nós é que temos de ir a Ele, se quisermos.

Balaio – Morte e religião tem a ver para você?
Cida – Não! Acredito em vida após a morte, mas isso independe da religião que eu tenha. No mais, lido muitíssimo bem com a morte. Tranqüilamente.

Balaio – Existem várias ‘Cidas’ dentro de uma só. Como conciliar todas elas?
Cida – Eu sofro. Dar aulas e subir no palco são prazeres diferentes. Mas de qualquer maneira é um só. O ofício da música o tempo todo. Trabalho 24 hrs com música. Esse é o prazer central da história. Além disso, sou mãe, dona de casa… É caótico conciliar tudo.

Balaio – Como é a Cida mãe?
Cida – Está aí a Júlia que não me deixa mentir. Ela diz que eu sou intransigente, autoritária e grossa. Uma mãe minimamente boa é uma mãe minimamente ruim. Odeio gente boazinha. E gente muito ruinzinha também não presta. Tem que ter equilíbrio.

Balaio – Como você vê a atual conjuntura brasileira na política e na cultura?
Cida – Tem coisas boas e ruins. De bom tem que o Brasil continua profícuo de talentos, belezas, culturas. Mas em termos de nação, nós somos hipócritas. A gente vive uma realidade que não é bem essa. Existe uma mistificação de um país que só há na cabeça de algumas poucas pessoas. E as decisões todas vicejam em torno desse equivoco, dessa falsa consciência sobre o que seja o país. A minha geração, por exemplo, jamais terá o que sonhou. Política? Lama! Apesar de ainda existirem representantes desse governo em que ainda acredito. Cultura? Falsa como a política. Na mão de grupinhos. Essa compulsão pela novidade é da natureza brasileira. Mas acho que isso não é o pior. O problema é a falta de critérios da população pra usufruir do que é dado pelo rodízio cultural da mídia.

Balaio – Quais cantores da atualidade, no seu ver, ficarão para sempre?
Cida – Difícil! A MPB hoje está mais velha do que era há 60 anos atrás. A última grande revolução musical foi a Bossa Nova (ri). O que fica, na verdade, é a qualidade das obras, e as pessoas andam sem tempo de construir uma obra. A relação com a arte é outra. Não tenho essa pretensão. Ou você fez algo que mereça ser lembrado ou não pode querer isso. Acho que se tudo morrer junto comigo, está tudo certo. Brecht diz: quem morre é o morto.

Balaio – Cida por Cida, como seria?
Cida – Sou filha de imigrante. Sou concreta. Meu pai veio da Itália pra substituir os escravos na lavoura de café. Então eu tenho esse jeito de abordar o mundo. Menos fantasioso. Qualidade: honestidade desconsertante, embora me traga muitos problemas até hoje. Defeito: essa mesma honestidade. Segundo minha filha, sou generosa beirando o excesso e nunca recebo o que dou em troca. Mas não acho. Penso que só sou doadora quando quero e acho que as pessoas merecem.

Balaio – Almeja algo que ainda não tenha?
Cida – Já almejei, não almejo mais. As coisas não estão resolvidas, mas pelo menos apaziguadas. Estou tentando me tornar o que eu sou. Quero descobrir o que é isso para ver se envelheço direitinho (ri).

Fotos: Edson Kumasaka (cedidas por Cida Moreira)

Agradecimento: Beatriz Ces Santos.


Ações

Informações

15 respostas

27 05 2007
Samantha

Parabens Thi,sempre me surpreendendo…
Excelente seu blog!!!!

28 05 2007
Joyce

Thiago… Parabéns pela entrevista….simplismente fantastica….
Adorei….bj

28 05 2007
Júlia

super bacana!!! a melhor parte é do bife com batatas!! hahahahaha!
muito bom, Thi! Parabéns e vamos que vamos!

28 05 2007
Lara

Mandou bem Thi.
Deu a liberdade pra ela dizer o que quisesse. Trasmitiu a força e a fibra que ela parece ter.Mas acho que faltou um pouco de você, de você falar dela, de fechar a entrevista com você sobre ela…entende?mas manda brasa,que, eu já disse, dos longes, você é o que mais vai…longe,e espero te alcançar lá =)
beijão
Lara

28 05 2007
Camila

Thi…parabéns!!!
Adorei seu blog….e a entrevista tbm!!
Tenho certeza q vc vai longe menino!!!
Continue assim e Boa sorte!!!
Bjaum

28 05 2007
Beatriz ces

Thi…simplesmente demais…o melhor perfil que eu já li. Claro, que a personagem ajudou muito, porém vc me surpreendeu com esse texto.

bjs

29 05 2007
Sofia

Thi!
Você pediu minha opinião sincera e, por isso, não poderia fazer diferente. Fiquei impressionada! Seja pela espontaneidade da Cida ou pelas perguntas certas da sua parte…Acho que entrevista com uma pessoa tem que ser assim, interessante e atraente. Sou bem fresca pra ler as coisas, não leio até o fim oq não me agrada. E sua entrevista eu li até o fim, pq estava me divertindo.
Discordo da nossa querida Larinha sobre faltar um pouco de você. A minha visão é que o espaço era dela, pra falar sobre ela. E você cedeu esse espaço, mesmo sendo uma pessoa inteligente, e capaz, tanto quanto ela, de falar coisas interessantes.
Essa é minha opinião, querido. E é sincera :)
Beijos!
Sofia

6 06 2007
Vanessa

Um pouco atrasada mas ainda em tempo…ADOREI!!! De verdade…
Entrevista divertida (a Cida mto mais) e uma excelente escrita.
Parabéns Thi!

4 07 2007
Aline

Oieeee Thi!!!!

Amei o jeito que vc elaborou essa entrevista! Não ficou cansativa, nem chata! Mto bem escrita! parabéns chuchu!

31 07 2007
Tiago David

Thiago, muito bacana seu blog! A entrevista também está ótima…
Parabéns!

7 01 2008
Rhayron

Cida, Fantástica!
Parabéns por esta maravilhosa publicação!

17 05 2008
candido

Espectacular cantora
adore

26 06 2008
Beatriz Ces

Beatriz ces

que merda de texto!!
vc é muito burro, seu animal!!

e essa cantora é uma bosta… credo!! péssimo gosto!!! cruzes

21 12 2008
alberto fernandes

essa mulher eh unica!!! canta tudo q eu kero ouvir, me adivinha, me inspira, me inkieta, sou completamente enCIDAesido…seres assim me fazem crer q a humanidade sigue… t amo Cida !!!

9 01 2009
CAMILO BARBOSA DA SILVA

Obrigado Thiago, por esta entrevista. Com o artista mais interessante do Brasil.

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